Embalagem como forma de embrulhar cultura

Embalagem como forma de embrulhar cultura

Recebi dois furoshikis de presente, um tecido tradicional do Japão usado para embrulhar, carregar e presentear objetos.

Depois que eu recebi o presente eu fui atrás para entender mais sobre essa tradição japonesa, e me deparei com a seguinte frase:

Furoshiki é o gesto de embrulhar com intenção.
Isso abriu uma conversa interna na minha cabeça. Porque, no fundo, o design de embalagens também é isso: um gesto de embrulhar, mas também um gesto de cultura.

Um artigo publicado na SciELO em 2025 (Neuromarketing: Strategies for Visual Perception in Predicting Consumer Behavior) utilizou a ferramenta eye-tracking para mostrar como o olho reage a imagens de campanhas gráficas. No estudo, a embalagem é o primeiro lugar onde o olhar pausa e também onde ele permanece por mais tempo.

Fonte: Neuromarketing: Strategies for Visual Perception in Predicting Consumer Behavior

Sendo a embalagem esse ponto focal, fica evidente a responsabilidade que ela carrega.
E aí vem a pergunta:

  • • como criar projetos que fiquem na mente das pessoas?
  • • como transformar esse primeiro olhar em algo memorável?
  • • como fazer da embalagem um gesto de experiência?

A Jessica Walsh em um vídeo fala justamente sobre isso: trabalhos marcantes não nascem de grandes viradas, mas de pequenos ajustes intencionais, aquele 1% que a gente insiste, testa, refina, até chegar no “ahaa!”.

Em projetos como Oniguiri e Manju da Abesan, na linha de chás da Marieta e nas embalagens de cerveja da Fellowship of the Beer, a gente não cria só um visual bonito. A gente constrói storytelling, conceito, referência cultural e comportamento.

Fonte: palp_studio

São trabalhos que não nascem só pra conter o produto, nascem pra criar vontade de oferecer, de entregar, de compartilhar, de presentear.

Porque a identificação com um produto não vem só da estética. Vem do repertório, da memória, do lugar de onde aquilo nasce, das origens, das suas vivências.

Ela não pode ser só um rostinho bonito na gôndola, ela precisa ser um reflexo do nosso comportamento, da nossa cultura.

A gente tem visto isso cada vez mais forte com a repercussão de artistas por exemplo como Bad Bunny, que colocaram a cultura latina e as referências locais no centro do palco global. Não é só música. É identidade. É pertencimento. É narrativa cultural.

No design de embalagem, acontece a mesma coisa. Antes de entender o que estamos vendo, a gente já está sentindo.

E esse tecido tradicional do Japão chegou justamente para me re-lembrar que embalagem não é só proteção. Quando respeitamos origem, gesto e contexto, o projeto ganha outra camada de verdade. E, assim, a embalagem passa a ser vista como gesto de experiência, uma forma de embrulhar cultura.

Como um furoshiki.


Fontes:

Neuromarketing: Estratégias para a percepção visual na previsão do comportamento do consumidorhttp://scielo.senescyt.gob.ec/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2661-65132025000200059&lang=pt

https://revistas.uasb.edu.ec/index.php/eg/article/view/4740

https://www.thespruce.com/keiko-furoshiki-gift-wrapping-8418211

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