Estamos ganhando mas estamos perdendo

Esses dias eu me deparei com um texto muito bom de um ex-colega de Universidade, Zeh Fernandes, sobre hábitos cognitivos e o custo invisível de pular etapas¹. A ideia central era sobre a importância de vivenciar o processo para aprender com ele. De forma bem resumida, o texto falava sobre o ato de pular etapas utilizando ferramentas de apoio, e que muitas vezes isso nos faz parecer economizar tempo.

Assim que eu li o texto me lembrei daquele filme clássico de sessão da tarde, Click, do Adam Sandler. Quem aqui se lembra? É um filme que retrata o ato de pular etapas consideradas chatas do dia a dia usando um controle remoto, aproveitando só as partes boas e acelerando o tempo. O final do filme você já sabe: ele percebe que pulou etapas demais e se perdeu no caminho.

Com a cabeça fervendo de ideias, logo eu relacionei tudo isso ao nosso trabalho no design. Esse controle remoto pode ser comparado ao uso excessivo de inteligência artificial, limitando o pensamento crítico. Ao pular etapas que são base do nosso processo criativo, vamos aos poucos ficando alheios ao cerne de qualquer projeto criativo: o porquê. Afinal, por que criamos design?

Imagem criada por mim

No MBA, estou estudando neurociência e psicologia cognitiva². No nosso dia a dia vamos justificando nossas escolhas com base em vieses cognitivos, pelo que é mais fácil para o nosso cérebro assimilar sem perder energia. Acontece que temos justificado nossas escolhas com pouquíssimo questionamento, uma vez que questionar cansa. Nossa memória começa a ficar preguiçosa e nossa capacidade cognitiva vai diminuindo com o tempo. 

Em uma das aulas, uma pergunta ficou na minha cabeça: qual é a quantidade ideal de esforço mental para consolidar uma memória? Se precisamos de um determinado esforço para pensar e memorizar para enfim gerar novas conexões cognitivas no futuro, quais tarefas podemos substituir por ferramentas, e quais etapas não podemos pular usando um ‘controle remoto’?

Aprendemos fazendo, lendo e reinterpretando, colocando a mão na massa. Sim, usamos ferramentas. Eu uso diversas para otimizar meu dia-a-dia. Meus alunos da Mentoria inclusive já viram o quanto eu sou prática quando se trata de trabalhos repetitivos, como uma resposta automática ou fechamento de arquivo para impressão. A questão não é essa. 

Se tem uma coisa que não podemos perder é a nossa capacidade de pensar. Reescrever o briefing na mão, por exemplo, me ajuda a olhar para o projeto com outros olhos. Usar post-its, canetas, qualquer coisa fora da tela. O ato de folhear uma revista, jornal, livro, sair das referências comuns e encarar a própria cultura como fator de diferenciação. Essas etapas parecem lentas quando não automatizadas, mas é nelas que nosso cérebro explode de ideias.

Abro um parênteses para o que vem acontecendo com a arquitetura, por exemplo. Casas iguais, sem grandes diferenças, cores cinzas e linhas retas. João Gomes do Álbum Dominguinhos já reclamava sobre isso em 2025: “Os arquitetos só queriam casa quadrada”³. Ele ficou frustrado porque ninguém queria fazer o projeto da sua casa com alpendre, uma espécie de varanda ampla e coberta. Esse novo padrão recorrente na arquitetura abre saudade da casa da avó, do ladrilho colorido, da cortina listrada na cozinha, do ornamento art-nouveau da fachada que rompia justamente com a rigidez clássica através de linhas curvas, assimétricas e formas orgânicas ou até mesmo com os ornamentos do movimento rococó.

Foto ilustrativa – Casa com alpendre

No design não é diferente. Quando deixamos de trazer o que é nosso para o projeto, o resultado começa a se parecer com o de todo mundo. Quando paramos de ouvir o cliente e olhar para o projeto com cuidado, entregamos uma embalagem que poderia ser de qualquer marca. Em outras palavras, se nos apoiarmos inteiramente em mecanismos robotizados estamos sujeitos a perder, aos poucos, a nossa verdadeira essência. 

No artigo de Ana Couto publicado no começo de 2026 na Exame, a agência diz: “A próxima crise das marcas será de identidade, não de atenção.”⁴ E isso vale para as pessoas também.

O uso de ferramentas excessivas nos dá a impressão de estarmos criando mais rápido, mas por outro lado tudo acaba ficando muito igual. E não é pra menos: as ferramentas geram resultados parecidos porque não têm justamente o que nos faz únicos: nossa individualidade, nossa capacidade de pensar, nossas referências pessoais, nossa cultura. Se bebermos sempre das mesmas fontes, como os resultados serão diferentes e únicos?

Foi aí que comecei a intensificar as leituras e buscar fontes próprias de pesquisa. Comprei diversos livros de design e me senti super criativa. 

Até que a ansiedade veio. 

Eu não conseguia ler e absorver tudo e ficava com a sensação de que eu estava procrastinando. Eu só pensava: como eu posso otimizar a leitura? Existe alguma ferramenta para isso?

Conversando com uma querida amiga, Rafaela Tidres, eu desabafei e comentei da sensação de não estar conseguindo absorver conteúdos da forma como eu entendia que seria o certo. Meu erro foi sempre achar que o “certo” seria ler um livro de design do início ao fim e guardar na memória o máximo de informações possível mas, ao longo do tempo, eu sempre ia esquecendo tudo o que tanto me empenhei para ler e começava a desanimar com a leitura técnica. 

Cheguei a cogitar pedir para o Claude resumir os principais pontos de cada livro para mim. Mas como o próprio Zeh escreveu no artigo que mencionei no início desse texto: “o que você leva com você não é o documento. É quem você se tornou ao fazer ele.”

Foto minha

Foi então que a Rafa me disse: “por que você não lê só os capítulos mais importantes para você nesse momento? E então revisita esses capítulos quando achar necessário. A ideia é usar os livros como suporte de consulta e não como um livro de ficção com início, meio e fim.” Isso abriu a minha cabeça na época e me fez pensar que o mesmo valeria para qualquer ferramenta, não acha? Usar como apoio, não como fim nele mesmo. 

É inegável o incrível suporte que todas as novas IAs nos dão. Em alguns momentos fazendo com que economizemos tempo, tempo que poderá ser utilizado para novas experiências e conexões, inclusive. Novas leituras, novas vivências, novas conversas como essa que tive com a Rafa.

Então o questionamento que devemos fazer hoje não é “se” devemos usar ferramentas, uma vez que o suporte delas já está inerente ao nosso processo.

O questionamento deve ser sobre “quais” etapas não podemos de forma alguma automatizar.

Porque, afinal, quando robotizamos tarefas que nos fariam pensar, o que estamos de fato ganhando e perdendo?


Links citados:

¹ Hábitos cognitivos: https://brasil.uxdesign.cc/habitos-cognitivos-7e356353e0ab

² MBA em Comportamento do Consumidor: https://online.faap.br/mba/mba-em-comportamento-do-consumidor

³ João Gomes revela frustração ao tentar construir casa com alpendre: https://www.metropoles.com/colunas/lucas-pasin/joao-gomes-revela-bastidor-da-casa-que-virou-meme-que-doideira

⁴ A próxima crise das marcas será de identidade, não de atenção. Publicado em Exame.com. https://exame.com/marketing/a-proxima-crise-das-marcas-sera-de-identidade-nao-de-atencao/


Priscylla Nunes – Palp Studio

Priscylla Nunes da Palp Studio é designer de marcas e embalagens, mentora e palestrante. Graduada pela UTFPR (2012), com especialização em Desenvolvimento de Embalagem pela FACAMP (2024) e MBA em Comportamento do Consumidor pela FAAP (2026). Coautora do livro Rotubook, com mais de 2.000 cópias vendidas, também foi jurada e vencedora do Prêmio ABRE da Embalagem Brasileira com Prata e Bronze, Bronze no prêmio BDA – Prêmio Brasileiro de Design, Ouro no prêmio Grandes Cases de Embalagem, além de conquistar reconhecimento internacional no DNA Paris Design Awards.